sábado, 27 de setembro de 2025

O que faz sua alma sorrir ?

Quando você se depara com a sua nudez do avesso,  você gosta do que vê? 

Despido do papel social que exerce, 

Despido de bens materiais, 

Despido das companhias,

Sozinho consigo mesmo diante do espelho. 

O que você vê? 


O corpo é matéria, 

O corpo é perecível,

O corpo tem data de validade.


Mas e a sua alma?

O que ela carrega?

Tem cor ou é opaca?


O que ela carregará daqui até a eternidade?

Que histórias suas cicatrizes contam?

E que desenhos ela possuí?

Exala vida ou destruição? 


Os trajes, o sorriso e o olhar te escondem

Mas a sua alma te revela.


27 de setembro de 2025.



sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Arquivo pessoal, sem data.

 Ele me disse em um murmulho gritante:

"Faça mais poesia de amor".

E então escrevi na parede da nossa sala aquela canção que embalava nossos beijos e abraços.

Pintei nos pilares da varanda os latidos e lambidas matinais: perfume de Amo(ra).

Pus me a dormir embaraçada nas listras dos nossos pijamas.

Arquivo pessoal, outubro de 2014.

 Sentia fome

O coração se contorcia

As pupilas se dilatavam

Os poros se excitava.


Um calafrio com cor, cheiro e nome percorria a epiderme,

E cada vez mais a  fome aumentava.


O coração mudava de coloração, 

pálido, sedento por toque,

por presença,

por amor.


29 de outubro de 2014.



As crianças embarcadas como passageiros

 Hoje a ferroviária amanheceu silenciosa

Os murmulhos de partidas e chegadas não ecoaram nas paredes da minha casa.

Eu mudei as xícaras de lugar troquei as cortinas da sala e não ouvi o trem deslizando no meu quintal. 


Arquivo pessoal, sem data.

Arquivo pessoal, agosto de 2014

 O rosto colado no vidro da janela

Cortina escancarada,

Na mesa doces e pães

O bule apita

Sorrisos ocupam a mesa 

O rosto contraía-se do lado de fora

A epiderme tenta adentrar a cozinha.

As partículas penetram as linhas faciais

Que contorcem e distorcem 

Gemidos ecoam  nas paredes.

A sua existência se desfaz

feito pó.


30 de agosto de 2014.

A vida como um linha fina: puxam, esticam, destendem.

 Arquivo pessoal, 2015.

Arquivo pessoal, fevereiro de 2015

 E então, de repente o ar tornou se rarefeito

Como se uma onda de calor tomasse conta de mim.

Pude sentir seu corpo rente ao meu

Como paredes grudadas onde a chuva escorre, deslizando sobre os breus dos tijolos

labirintos sacanas como o emaranhado do seu cabelo.


03/02/2015

domingo, 21 de setembro de 2025

O trem da meia noite

Os ponteiros do relógio marcam 23h58 e o trem está preste a partir. 
Ela sabe que não poderá voltar atrás da sua escolha.

Um sussurro sorrateiro invade seus ouvidos. E apesar do barulho do vento a música é irresistível, trazendo muitas lembranças a tona que a fazem espiar por cima do ombro.

Ela vislumbra um redemoinho de sorrisos, beijos e abraços.
As imagens estão borradas, embaçadas e giram tão rápido que um mosaico de cores e memórias é formado: Uma estampa de guarda chuva rosa com bolinhas brancas se funde com as cores das ruas, a chuva goteja pela imagem: dois jovens, um beijo, um desejo. Eles são sugados pela espiral feroz do redemoinho, passando por um carro, gemidos, vidros embaçados. Deslizam por um quarto rosa, ele está enfeitando a cama com ursinhos de pelúcia, ela está sentada, cores e formas saem de sua pele, tingindo  madeira, pedra e papel, todo o amor que não cabe dentro dela. 

Eles giram pelo redemoinho e há dois jovens nus, não só de roupas, mas nus do pudor, da vergonha, do mundo. Há somente os dois que se fundem com a tinta virando um só. 

O vento gira e agora a cena é em um cinema, um filme, um pedido de casamento. A felicidade está ali, assim como a esperança. Há dentro deles uma chama que clama para ser incitada, invocada, fazendo com que eles lutem pelo sim, pela vida eterna. 

Agora é domingo, o sol paira sobre o campo. Ela aparece vestida  de noiva, de sorrisos e de alegria. Ele irradia luz, amor e felicidade.

De repente tudo começa a ficar escuro, obscuro. Ela está sentada ao fundo, sem cor, sem vida. 
Perto dela há respingos de tinta, ela sabia que a cor preta também faz parte da vida, silenciando o azul, o verde, o anil. 

O vento faz seu cabelo voar, como ondas em dia de tempestade. Ela volta a realidade, o trem está partindo, para nunca mais voltar. 


21.09.25