Os ponteiros do relógio marcam 23h58 e o trem está preste a partir.
Ela sabe que não poderá voltar atrás da sua escolha.
Um sussurro sorrateiro invade seus ouvidos. E apesar do barulho do vento a música é irresistível, trazendo muitas lembranças a tona que a fazem espiar por cima do ombro.
Ela vislumbra um redemoinho de sorrisos, beijos e abraços.
As imagens estão borradas, embaçadas e giram tão rápido que um mosaico de cores e memórias é formado: Uma estampa de guarda chuva rosa com bolinhas brancas se funde com as cores das ruas, a chuva goteja pela imagem: dois jovens, um beijo, um desejo. Eles são sugados pela espiral feroz do redemoinho, passando por um carro, gemidos, vidros embaçados. Deslizam por um quarto rosa, ele está enfeitando a cama com ursinhos de pelúcia, ela está sentada, cores e formas saem de sua pele, tingindo madeira, pedra e papel, todo o amor que não cabe dentro dela.
Eles giram pelo redemoinho e há dois jovens nus, não só de roupas, mas nus do pudor, da vergonha, do mundo. Há somente os dois que se fundem com a tinta virando um só.
O vento gira e agora a cena é em um cinema, um filme, um pedido de casamento. A felicidade está ali, assim como a esperança. Há dentro deles uma chama que clama para ser incitada, invocada, fazendo com que eles lutem pelo sim, pela vida eterna.
Agora é domingo, o sol paira sobre o campo. Ela aparece vestida de noiva, de sorrisos e de alegria. Ele irradia luz, amor e felicidade.
De repente tudo começa a ficar escuro, obscuro. Ela está sentada ao fundo, sem cor, sem vida.
Perto dela há respingos de tinta, ela sabia que a cor preta também faz parte da vida, silenciando o azul, o verde, o anil.
O vento faz seu cabelo voar, como ondas em dia de tempestade. Ela volta a realidade, o trem está partindo, para nunca mais voltar.
21.09.25